Guia completo sobre as dificuldades durante o High School – EUA

Acho que concordamos com o fato de que uma pessoa que acaba de fechar o programa de High School, com seus 16 – 18 anos, fará o seu primeiro intercâmbio e está prestes a descobrir um novo mundo sozinho. Tem dificuldades durante o High school?

Como eu disse no post sobre as dificuldades que passamos no primeiro mês em um novo país, vou comentar mais detalhadamente sobre os temas: Idioma, Cultura, Amigos, Casa e Mudança de Host family. Só para esclarecer: eu fui para os EUA em 2009, mas acho que os medos, incertezas e as dificuldades continuam os mesmos na cabeça de uma pessoa de 17 anos que está prestes a sair da sua zona de conforto (amém).

Chamei de “guia completo” porque ficou enorme, feito especialmente para quem tem tempo e interesse no assunto. O post é uma uma mistura de relatos pessoais e dicas destinado às pessoas com dúvidas (até receios) sobre o programa de high school. Espero que possa ajudar!!!


DIFICULDADES DURANTE O HIGH SCHOOL

Este post está dividido em 5 páginas. Não deixe de ler todas:

IdiomaCulturaAmigosFamíliaTroca de família

O idioma do país é – de longe – a pior dificuldade ( 😉 não que as outras não sejam as piores também). Você até entende, mas não consegue falar exatamente o que pensa; ou não entende mesmo, porque dependendo do lugar (como no meu caso) as pessoas têm um sotaque muito diferente do resto do país, e aí o curso de idiomas que você fez no Brasil não vai salvar sua pele; passa por diversas situações chatas e muitas engraçadas porque não entendeu o que estava acontecendo.

A boa notícia é: em 2 meses +/- você vai entender muito melhor o que as pessoas falam. Em 4 meses no máximo, vai conversar sem ficar “hm…aaaa…eee..hm…” porque você já não fica pensando na tradução português>inglês da palavra que quer falar. Já fala automaticamente! Depois de 6 meses, o novo idioma estava muito melhor e eu até sonhava em inglês. Ou seja, a pior parte dessa dificuldade passa rápido.

calebEste é o Caleb. Meu amigo que me deu um ótimo conselho sobre comunicação 🙂

Uma dica muito boa em relação à comunicação é: SEMPRE pedir para a pessoa repetir o que ela falou se você não entendeu. Isso evita situações constrangedoras! Eu tinha mania de responder com “yeah” e um sorrisinho, torcendo para que a pessoa não tivesse perguntado alguma coisa e já soubesse que a resposta era “não”. Até que isso aconteceu! Vou escrever mais ou menos como foi o diálogo e aí já fica a dica do meu amigo para vocês:

Meu amigo: Bla bla bla… (não entendi nada)

Eu: Oh yeaaah

Meu amigo: Yeah? (com uma cara de assustado)

Eu: Não…

Meu amigo: Não?

Eu: Não sei (sem graça), o que você falou? Acho que não entendi!

Meu amigo rindo da minha cara: Camila se você não entende o que a pessoa está falando, sempre responda NÃO. Os meninos da escola poderiam se aproveitar disso (em tom de brincadeira)… imagina só se em uma festa eles te falam: “quer ir pra um quarto comigo?” e você responde yeah com essa cara de perdida, não vai saber nem o que está acontecendo. Então responda NÃO; “quer mostrar seus peitos pra mim?” Não entendi, mas é NÃO; “quer pagar meu almoço?” Sei lá o que você está falando e é NÃO de novo. Melhor negar sempre.

Esse meu amigo estava sempre fazendo piadas, mas fez muito sentindo o que ele falou. Então entre o sim e o não, prefira o “não” 🙂 . Brincadeiras a parte, o melhor mesmo é pedir para repetir quantas vezes forem necessárias. As pessoas legais entendem que você está aprendendo e até mudam o jeito de perguntar. Tem gente que pergunta exatamente igual, não faz esforço para te ajudar a entender, aí você reza para responder algo que faça sentido hahaha. Acontece! Isso é por pouco tempo.

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A melhor coisa que você pode fazer sobre a cultura é saber como funciona, entender, não julgar e se adaptar. Eu cometi esse erro mais de uma vez: entendia que era a cultura deles, mas não queria aceitar e isso só me gerava problemas!

artclassTurma de Artes em Savannah – GA

Primeiro caso: a maioria dos pais americanos que eu conheci era meio rígido, pelo menos na minha região que era mais conservadora. Eu tinha 17 anos e tinha horário para voltar para a casa – até aí tudo bem – mas se atrasasse um minuto… era uma novela, como  se não houvesse amanhã. E isso não só comigo, mas com uma boa parte dos meus amigos americanos. Os que tinham pais mais liberais eram os rebeldes da escola. Avisar que ia até a casa da amiga, mas não avisar que ia tomar sorvete na esquina (mesmo que eu já estivesse fora de casa) já era um Deus nos acuda, falta de respeito e tal. Eu tinha que escutar sermões eternos por coisas mínimas.

Não era porque eu era intercambista! Como eu disse, muitos pais que eu conheci eram assim com os próprios filhos. Totalmente diferente da confiança que meus pais tinham em mim no Brasil. Ou seja, eles com 16 anos podem ter um carro, mas em certas situações eram tratados como crianças de dez anos. Essa foi uma das primeiras coisas que eu estranhei quando cheguei, mas não tinha muito o que fazer. Ou me adaptava ou arrumava dor de cabeça e mais sermões… Lembrando que não tem como generalizar. Só posso falar sobre a minha região.

O próximo relato é sobre um assunto que gera certa divergência de opiniões, mas acho que a experiência tem que ser compartilhada – até porque é o intuito/nome do site – para conhecimento de quem nunca foi pra lá. Acho válido ressaltar que, não só esse post, como todo o conteúdo do site é baseado em nossas experiências. Abaixo, descrevi um cenário que vivi na Georgia, sem generalizações ou intuito de ofender qualquer pessoa que discorde de qualquer palavra escrita. Pode ter havido mudanças nos últimos anos, mas me limito a falar sobre a época e região em que estive/morei. Aliás, convido a todos que tenham qualquer informação que possa – de alguma forma – agregar ao conteúdo do post, a comentar no final da página. 🙂

A tensão racial que existe nos EUA não é a mesma que conhecemos no Brasil. E nem de longe é parecida! Durante meu intercâmbio, eu percebi a existência nua e crua do racismo. Eu falo pra todo mundo que lá eu conheci a diferença das cores preto e branco. Era uma “guerra”, coisa de cidade pequena e o pior, no sudeste dos Estados Unidos.

Pra quem não sabe, a Georgia é um estado formado por praticamente 50% brancos 50% negros. Na minha escola tinha bastante negro, o que até aí, parece normal. O que eu achava muito diferente é que o mundo deles parecia ser divido em 2… no refeitório, negros com negros e brancos com brancos. Nos intervalos, tudo separado. Jeito de se vestir, jeito de falar. Bairros separados. Uma pessoa branca que namorava uma pessoa negra formava o “casal problema” e a fofoca da cidade. Notícias como essa (clique aqui) parecem absurdas, mas lá é normal. Eles só se juntavam nos esportes e quando jogavam no mesmo time. Pelo menos os professores tinham a mente mais aberta.

Eu tinha uma aula em que eu era a única branca. Eu passava e eles falavam “olha a branquela esquisita do Brasil”; na aula, jogavam papel em mim; riam quando eu falava errado; mexiam nas minhas coisas. Nessa turma especificamente (que não é a da foto), as pessoas eram bem maldosas. Ainda bem que o tempo passou e eu fui mostrando aos poucos que eu não tinha a mesma mentalidade que as pessoas de lá. Obviamente, nem todo mundo era assim comigo. Em outras turmas, as pessoas me trataram muito bem, como na classe de artes (da foto acima). A gente conversava bastante durante a aula, eles eram gentis e sempre elogiavam meu cabelo, pediam para fazer umas tranças (porque era comprido e as meninas gostavam), essas coisas. Eram simpáticos mesmo. Mas, fora da sala de aula, nós não nos falávamos muito porque cada um tinha seu grupo. Essa linha de divisão, nem tão invisível assim, existia.

Eu sei que tem toda questão histórica que, definitivamente, não ficou no passado para quem vive lá. Nosso próprio país carrega as cicatrizes da história, mas acho que por ser um país tão miscigenado, nós não olhamos para a diversidade como algo tão raro, afinal ela é nossa marca. Se eu falasse para os mais conservadores lá que era amiga de algum negro com toda certeza isso seria muito estranho para eles. E eu pensava que eles acharem isso estranho, era mais estranho ainda. Ok, não sou hipócrita a ponto de falar que não existe racismo no Brasil ou que somos maravilhosos aqui, mas não dá para comparar como as coisas acontecem lá. No Brasil, as pessoas se mobilizam contra o racismo e o preconceito (esse vídeo mostra mais ou menos o que eu quero dizer). Lá é a coisa mais comum, faz parte da rotina.

Outra coisa que é diferente do Brasil: se você fala nos EUA que uma pessoa é “negra” é considerado racismo. O normal é falar que a pessoa é “preta”. Eles falam sem o menor problema “the black boy” mas a palavra “negro” é ofensiva. Os negros podiam se chamar de negros entre eles – mais como uma gíria – mas se um branco falava, pegava mal.

Recentemente, fiquei sabendo da história de uma menina brasileira que foi fazer intercâmbio nos EUA e não sabia que a maioria dos alunos da faculdade eram negros (não sei ao certo qual a faculdade, mas sei que não era na Georgia). Ela pediu para mudar de faculdade porque não aguentou o ambiente (não por ela ser racista, mas sim pelo preconceito que ela sofreu). Não tem como julgar. Eu mesma pedi mais de 4 vezes para mudar da turma em que eu era a única branca porque eu não aguentava mais chegar lá e ser recebida daquela forma todo santo dia. Sofria bullying naquela aula pelo fato de ser a única branca. E eu não tinha problema algum com eles (foi bom a professora não me trocar de turma, porque sair dela seria o jeito mais fácil de lidar com o problema. No final do semestre, eu era amiga da maioria das pessoas da sala… foi o que eu disse sobre tentar mostrar que eu não tinha a mesma mentalidade de outras pessoas. Demorou, o processo foi sofrido, mas deu certo).  Enfim… século XXI e essas coisas existem e nesse nível.

De novo, não é possível generalizar. Comentei os casos extremos. Na minha própria cidade tinha as pessoas brancas e negras que já mostravam outra postura em relação ao assunto e, do mesmo jeito que eu tive essa experiência, minha irmã foi escolhida por uma família negra para morar no Texas que já é uma região totalmente diferente. Foi super bem tratada, eles receberam meus pais (quando foram visitar a minha irmã) e são amigos até hoje. É importante perceber que a cultura de um país muda muito de uma região para outra e até mesmo de uma família para outra. A imagem a seguir (encontrei nesse site) mostra bem isso:

racism

Pois bem… Quando eu discordava de certas coisas, tentava conversar e explicar para as pessoas meu ponto de vista. Às vezes funcionava, às vezes só ficava um clima chato. Se eles não entenderem, paciência! Você é a pessoa que tem que se adaptar e não eles. Hoje em dia eu falo isso, na época eu não entendi, me revoltava. O tempo passa, as pessoas amadurecem!

Por isso, se você está em um intercâmbio agora, essa é a dica: entenda e não queira fazer a revolução das culturas, afinal você quis fazer parte do mundo deles! Essas situações são inevitáveis. Você passará por isso com todos… família, amigos, pessoas que você nem conhece e em todos os lugares. Se você acha estranho, é só lembrar: ok, é a cultura deles. Não precisa aceitar e se converter, mas sim respeitar e aprender a relevar certas coisas.

Desse jeito você aprende muito e só tem a ganhar.

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Eu sei que parece meio bobo escrever um post sobre como fazer amigos no intercâmbio, mas acredite… não é a coisa mais fácil do mundo. Principalmente amigos nativos e no mundo high school onde as panelinhas já estão formadas.

Eu escrevi sobre esse assunto porque era uma coisa que me incomodava muito na época. Eu tinha muito medo de ficar sozinha na escola, comendo meu almoço no banheiro tipo a Lindsay Lohan no filme Meninas Malvadas hahahaha, é verdade. Sete anos depois, eu não me importo mais com isso. Na verdade, comecei a curtir viajar sozinha. Mas eu sei dos receios que eu tive com 17 anos, então tomara que isso ajude quem está prestes a viajar:

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Eu não tive tantos problemas com amizades porque tive sorte. Você é intercambista, mas não necessariamente é a novidade da escola. Na minha, tinha só 400 alunos e 12 eram de outros países. Você não precisa andar só com os intercambistas porque é mais cômodo – rolar uma amizade é mais fácil já que eles estão na mesma situação que você – nem só com americanos e fugir das pessoas de outros países. Eu tinha amigos americanos e minhas melhores amigas eram uma alemã e uma brasileira!

Eu mudei de família durante o intercâmbio. Na primeira família, eu tinha duas irmãs da minha idade e nós frequentávamos a mesma escola. Por causa disso, logo no começo, eu ficava com elas e seus amigos. O problema é que eu era sênior (último ano do ensino médio americano), elas eram júnior (penúltimo ano) e fazia só um ano que tinham se mudado para a cidade. Por elas também serem novas na escola, acabaram formando um grupo de amigos com os intercambistas que já estavam lá quando eu cheguei. Os amigos delas eram muito novos, não sei bem como explicar mas não tinha o mesmo papo que eles, me sentia meio perdida.

Depois da mudança, as meninas nunca mais falaram comigo e eu tive que achar outro grupo. No meio dessa confusão toda, mudando de família etc, fiquei muito próxima de uma brasileira que já estava lá desde Agosto, a Lydia <3 . Ela me ajudou muito nessa época. Eu fiquei sem família 🙁 e passei um tempo com a host family dela até encontrar outra. Vou falar mais sobre essa fase nas próximas páginas.

post2Ok, ela era intercambista, mas não era do grupo de intercambistas que ficavam juntos 24 hrs. Ela andava com umas meninas americanas e foi graças a ela que não tive que sentar sozinha para comer e ficar procurando amigos haha. Mas fiquei praticamente 1 mês perdida nesse primeiro grupo. Então, muito provavelmente, seus amigos não vão aparecer nos primeiros dias, tenha paciência. O primeiro mês é uma fase de adaptação e transição mesmo.

Mesmo assim, eu não tinha nenhuma aula com a Lydia, então tive que buscar amigos nas minhas turmas. No começo o pessoal se enturmava, falava comigo, perguntava o que queriam saber e saía. Mas a amizade veio com o tempo sabe. Grupos de trabalhos, viagens da escola. Eu não pratiquei esportes, mas os treinos te ajudam a se aproximar das pessoas também! Além disso, eu morei em uma cidade MUITO pequena e todo mundo se conhecia. Minha segunda família era conhecida na cidade então, assim que me mudei para a casa deles, várias pessoas vieram falar comigo porque conheciam meus pais e começaram a ser bem mais simpáticos.

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No final das contas, você será amigo de quem é parecido com você. Eles estarão nos lugares que você mais frequenta… se você fizer algum esporte, muito provavelmente será amigo de quem estiver no time. Minha amiga brasileira disse que quando chegou em Agosto (6 meses antes do que eu) ficava em um canto sozinha sem muitos amigos. Começou a ter amigas quando virou líder de torcida. Essa coisa de filme de que as líderes de torcida são as populares da escola é mito. Ela não começou a ter amigos só porque era líder de torcida, mas sim porque começou a conviver com as pessoas e ter assuntos em comum. Isso é o óbvio em qualquer lugar, mas eu sei que é meio desesperador no começo do intercâmbio.

Seja simpático, puxe papo, pergunte coisas mesmo que você já saiba a resposta só para ter um assunto. Normalmente, quando você fala que é do Brasil as pessoas já têm um interesse maior. Se convide, sem parecer maluco ou inconveniente haha! O intercâmbio faz bem para pessoas tímidas, porque se não quer ficar sozinho vai ter que se virar e enfrentar a vergonha. Faz bem também pra quem é muito arrogante no Brasil e está acostumado a ter pessoas correndo atrás por qualquer motivo que seja. Chegando lá, as pessoas não te conhecem, você não tem uma história. Elas já tem o próprio grupo de amigos e não precisam de mais um. Não importa quem você é no Brasil, tem que ser mais humilde para ser aceito e conseguir ter uns amigos. Já vi muita gente passando por isso. E assim, a gente vai aprendendo.

(Além disso, americano adora conversar por mensagem, então se você quiser ter uma vida social, tenha um celular lá. Hoje em dia parece óbvio mas em 2009 não existia whatsapp. Tinha acabado de começar a moda do bbm no blackberry hahaha. Sim, to velha! Nem sei te falar se as pessoas usam whatsapp lá, porque as ligações e mensagens são ilimitadas e eles não precisavam de aplicativos para economizar na conta. Eu sei que até 2011 minhas amigas de lá não tinham e só baixaram o app para falar comigo).

post5Em questão de relacionamentos, as pessoas começavam a “namorar” por mensagem de celular e terminavam através de mensagens também. E é normal… pra eles relacionamentos e mensagens de celular tinham uma forte ligação. Muito forte. Se alguém estava interessado em outro alguém, pedia o número do fulano para um amigo em comum e começava a mandar mensagem do nada. Direto minhas amigas iam contar que estavam com um futuro rolo e falavam “guess who is texting me??”. Se um cara te mandava mensagem era 100% de chance de que ele tava a fim. E toma cuidado também porque, às vezes, você está trocando mensagens com uma pessoa só pra ter assunto ou um amigo e eles já acham que você quer alguma coisa séria, mesmo que a conversa não tenha um pingo de segundas intenções.

 post6O começo é difícil mesmo… muito mais difícil do que as pessoas que estão de fora podem achar, é verdade. Mas seja simpático e deixa que o tempo faz o resto! Depois você acaba ficando amigo dos amigos do seu amigo e seu círculo de amizade vai crescendo.

Resumindo… fiquem tranquilos, vocês farão amigos mais cedo ou mais tarde! E se não for uma amizade forte e duradoura, que seja só para não ficar sozinho e aprender inglês. De tudo no intercâmbio, podemos tirar alguma coisa boa.

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Essa é a questão que te deixa mais nervoso desde o começo do intercâmbio né? Você paga o programa e pensa: onde é que eu vou parar?

post8Quando descobri que uma host family tinha me escolhido, lembro de ter ligado para minha mãe que estava no trabalho e dizer chorando: “Eu não quero mais!”

Eu dei um google na minha cidade e olha o que falava: “Kite is a town in Johnson County, Georgia, USA. The population was 241 at the 2000 census.” Sim, 241 pessoas. Procurei também no google imagens e era uma roça! Não tinha nada em nenhuma parte. Só mato… e eu achando que ia morar perto de uma cidade top! Enfim, foi um drama só! Chorei, queria cancelar tudo… mas minha mãe muito sábia me disse: Vai e vê! Se for ruim, volta! Essa dica é pra toda a vida: não deixa pra saber como teria sido; tem que tentar!

Fiquei mais animada quando recebi fotos da família (que não é essa da foto) e quando eles me ligaram no Natal! Então ta, cheguei lá! Não era tão ruim como o google tinha me mostrado hahaha! Kite é uma mini cidade que eu mais chamaria de bairro, perto de uma cidade chamada Wrightsville. Essa também é pequena, porém é muito bonitinha, super americana.  Era lá que eu estudava.

No final, o que eu tinha achado ruim, foi a melhor coisa do meu intercâmbio. Em cidade pequena, todo mundo se conhece… depois de poucos meses eu também conhecia a cidade inteira! Então eu cheguei naquela escola , querendo ou não, eu era novidade – apesar de já ter um monte de intercambistas, uma pessoa nova em uma cidade que tem 2500 pessoas não deixa de ser novidade – e as pessoas, na verdade, queriam falar comigo. A Bruna foi parar em uma das maiores cidades dos EUA e é diferente. O pessoal não está nem aí. É só comparar… se fosse para um americano se mudar para a cidade de São Paulo ou para uma cidade do interior. No interior, as dificuldades seriam as mesmas porém em menores proporções.

post12Além disso, essa região dos EUA é conhecida pelo estilo de vida rural. Meu pai era caçador e o passatempo dele era matar animais! Depois de me buscar na escola, ele saía pra caçar, matava um peru ou outro e comíamos no jantar, juro! Eu fui uma vez junto, depois ele me pediu para ajudar a limpar o coitado do bicho e foi muito desagradável. Trauma, define esse dia! 

Minhas atividades em família: pescar! Nunca tinha pescado antes e nunca pesquei tanto na vida. Meus amigos também adoravam. Final de semana, era encontro no lago de um amigo pra galera pescar. Era bem assim.

Por fim, cidade pequena não é cheia de brasileiros que, automaticamente, se juntam com você e acabam com as chances de não falar português! É inevitável falar a língua materna, tem que ser muito disciplinado. Mesmo assim, minha cidade tinha 2500 pessoas no máximo e 3 eram brasileiros hahaha. Minha sorte é que a Lydia já morava lá antes então ela falava inglês na maioria do tempo.

Sabe onde eu vou viver outra coisa parecida? Nenhum outro lugar! Experiência única.

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Hora de falar sobre a coisa mais difícil do meu intercâmbio… É um relato pessoal gigante para quem tiver interesse e dicas no final do post:

A família que me escolheu tinha muitos problemas… entre eles mesmos. E, no fundo, eu acredito que eles pegaram um intercambista para ver se melhorava o clima da casa. O único dia em que tudo foi tranquilo, foi quando eu cheguei. Desde o segundo dia, eu percebi que aquilo não seria bom.

O problema era que a mãe brigava muito com as meninas; batia e xingava. Isso acontecia do meu lado e, quando eu não estava por perto, dava para escutar do meu quarto. Não era briguinha a toa… era pesado mesmo. Comigo eles eram muito legais e tal, mas eu não conseguia ignorar aquilo.

No começo, a mãe me deu um celular, disse que eu não teria que limpar a casa porque as filhas fariam, enfim… eu tinha uns privilégios. Os dias foram passando e esse cenário era rotina. O ambiente da casa me afetou, meu humor tinha mudado desde o dia em que eu tinha chegado e todo mundo percebeu. Eu estava bem triste lá. Ela viu que a situação me incomodava e veio conversar dizendo que estava tentando sempre disciplinar as filhas e só queria o bem delas. Eu até fingi que entendia, mas isso não fazia dos meus dias com eles mais agradáveis.

Eu não tinha com quem conversar, afinal, eles não tinham internet. Por conta disso, o contato com meus pais era bem limitado. Na escola, eu só ficava com as irmãs e os amigos delas. Para ajudar, nós quase nunca saíamos; era da escola para a casa e vice-versa. Quando eu perguntava se podia sair com as pessoas da escola, a resposta era sempre não: as meninas não podiam já que estavam sem dinheiro, então eu também não. Ela dizia que queria ser justa, mas todo final de semana ela saía sozinha e nos deixava trancadas na casa o dia todo. Voltava quando eu já estava na cama prestes a dormir. Quer dizer, ela não me levava nem na esquina e eu não podia fazer algo com outras pessoas. Tudo bem que eu fui pra lá aprender inglês, mas não queria viver numa prisão domiciliar no intercâmbio.

Conforme minha amizade com as meninas foi crescendo e eu me afastando cada vez mais da mãe, as coisas pioraram pro meu lado. Ela pegou birra sem mais nem menos e do nada tomou o celular, disse que eu tinha horário para usá-lo e começou a me dar tarefas domésticas. Não entendi, mas também não reclamei. As semanas foram passando e eu estava numa situação miserável, sem brincadeira. Umas 4 semanas sem sair de casa e todas aquelas brigas bizarras (não eram poucas). Mesmo sem ter a menor habilidade para jogar tênis eu pensei em pedir uma vaga no time só para sair de casa e a mãe também me proibiu dizendo que não poderia me buscar depois dos treinos. Quando disse que tinha carona para a casa, ela apenas desconversou. Não podia ir nos jogos da escola ou fazer nenhuma atividade extracurricular.

Para completar, as meninas estavam me amando falando que desde que eu tinha chegado, a vida estava muito melhor. Essa foi a parte difícil da decisão. Eu queria sair da casa, mas não queria magoá-las. Ficava pensando nas consequências, me sentia culpada e tal. Eu tinha a opção de ir embora, mas elas não (ou pelo menos achavam que não). Eu não reclamava para o coordenador porque antes de viajar, a agência bota uma pressão grande de que você tem que ser moldado, que a cultura é diferente, que pode não ser aquilo que você imagina. Eu fui com a mente bem aberta sabe, então tudo isso acontecia e eu continuava pensando que eu era o problema e tinha que tentar mais.

Essa fase não foi difícil só para mim… minha família no Brasil estava sempre preocupada. Minha mãe ficou muito mal, afinal é ruim saber que alguém que você ama está sofrendo e tão longe. Eu lembro que ela perguntou se eu queria voltar e disse que se eu quisesse, estava tudo bem. Eu não queria que fosse um dinheiro perdido em tão pouco tempo e falei que dava pra aguentar mais um pouco, que ia esperar. A gente só chorava quando ela me ligava. Foi tudo péssimo.

Chegou um dia que eu precisava desabafar e fui conversar com a Lydia. Nós não éramos muito amigas, mas fui perguntar como ela tinha aguentado ficar 6 meses lá, porque em tão pouco tempo eu já estava quase surtando. Eu realmente pensava que todas as famílias eram mais ou menos como a que eu estava. Foi aí que ela me disse que sabia dos problemas da minha família, mas achou que estava tudo bem porque, segundo as meninas, tudo era uma maravilha. Com ela eu me abri e contei tudo. Ela conversou com a mãe dela e me chamaram para passar um final de semana com eles. A “minha mãe”, é claro, não deixou, então a mãe da Lydia foi conversar com ela pessoalmente. Na hora ela disse sim, mas ela tinha um plano né: ao invés de me deixar sair um único final de semana que eu já ficaria satisfeita, ela chamou o coordenador do programa de intercâmbio e reclamou que eu não tentava ser parte da família e falava português o tempo todo com a Lydia e o outro brasileiro e, pra completar, que ela estava com medo porque ficávamos olhando para ela falando outra língua (isso nunca aconteceu, obviamente). Eu já tinha percebido que ela não batia bem das ideias, mas essa atitude me indignou. O coordenador nos reuniu, ameaçou nos desligar do programa de intercâmbio e, nessa hora, eu contei tudo que estava acontecendo. Eu disse que não queria mais voltar pra lá e ele, na maior frieza, respondeu que não tinha outra família. Era essa ou Brasil!

Pra vocês verem a qualidade do serviço dessa agência. Aqui no Brasil deu tudo certo. Mas a agência americana conveniada (que é a que cuida dos intercambistas nos EUA) foi PÉSSIMA. Eles nem checaram a família, não fizeram uma pesquisa sobre o histórico dos pais (se tivessem feito, nunca teriam me colocado para morar com aquela mulher). O coordenador americano, que deveria me supervisionar e fazer algumas visitas periódicas, só apareceu quando a mãe reclamou de mim e depois de me ver chorando e falando tudo que tinha acontecido, junto de outras pessoas que estavam realmente preocupadas com a minha situação, ele disse que não tinha outra família e queria me devolver para a casa deles como se eu fosse um pertence perdido. Minha mãe (do Brasil) conversou com ele por telefone e ameaçou processar a agência e só aí ele acordou pra vida. Entrou em pânico na verdade. Ligou para o chefe dele que, de repente, estava acessível e disse que meu caso seria outro “Gustavo”, um brasileiro que estava lá antes e teve problemas com mais de uma host family. Ou seja, não era a primeira vez né… A própria Lydia teve que mudar de família quando chegou. É muita falta de consideração com as pessoas!

Resumindo: resolveram que iam me tirar da casa, mas eu tinha que ir até lá para fazer minhas malas (nisso tudo eu estava na casa da Lydia). Não bastava esse rolo, eu ainda estava muito preocupada com minhas coisas e, principalmente, com meu passaporte que ficaram na casa.

Acho que não preciso dizer o quão desagradável foi a situação. Ele combinou comigo que era para fingir que íamos conversar sobre tudo com a família e que “decidiríamos juntos” sobre a minha mudança, mas já estava decidido… não tinha nada que eles pudessem falar que me fizesse mudar de ideia. As meninas choraram muito, eu chorei horrores. O pai, que sempre foi fofo comigo, veio me abraçar e disse “eu entendo porque você quer ir embora, eu moro aqui também”. O coordenador estava sentado bem ao meu lado com a maior cara de tacho e eu só lancei aquele olhar de desprezo pra ele, pensando “valeu mesmo por tudo isso viu”. Olha a situação, sério!!! Por que você coloca um adolescente de 17 anos nesse rolo? Era SÓ ter feito uma entrevista, ter visitado a casa, falado com pessoas que conheciam e uma família assim nunca estaria no programa para receber intercambistas.

Não acaba por aí… depois do meu caso, a agência teve a capacidade de colocar mais 2 intercambistas para morar com eles no semestre seguinte. Eles já sabiam da situação e mesmo assim não ligaram. Adivinha? Óbvio que não deu certo. Uma completa falta de respeito com os clientes que pagam os olhos da cara para mandar os filhos para uma experiência legal e acabam passando por isso. E o pior: se alguém comentasse sobre as antigas histórias, eles falavam mal dos intercambistas para proteger a integridade das famílias. Eu já tinha voltado para o Brasil quando a menina que estava morando com eles me adicionou no facebook (meus amigos da escola contaram minha história pra ela) e me disse que estava pensando em mudar também… aí ela queria saber a minha versão dos fatos. A família ou o coordenador tinham dito que eu era o problema e foi opção deles me tirarem da casa. 😀

No final, encontrei outra família que também não era perfeita. Isso não é uma crítica. Nenhuma família é perfeita e todas tem seus problemas, o que é normal. Mesmo assim, eles foram muito legais comigo. Me adotaram como filha mesmo, me senti em casa com eles. A gente teve vários momentos bons, brigamos algumas vezes, mas eles realmente assumiram o papel de pais. Eles tinham um carinho enorme por mim e eu por eles, principalmente pelos meus irmãozinhos (que tinham 9, 7 e 2 anos na época). Até hoje nos falamos e eles sempre me convidam para visitá-los.

Mudar de família definitivamente mudou o rumo do meu intercâmbio.

Foi a pior fase, com toda certeza do mundo! Não desejo isso a ninguém, porém aconselho muito caso seja necessário!

Agora as dicas:

– O barato sai caro. Fui por uma agência porque tinha um programa um pouco mais barato que a outra que tinha visto. Eu conhecia pessoas que tinham ido por essa agência e a diferença de preço não era gritante, mas influenciou na decisão. No ano seguinte, minha irmã foi pela STB e não teve problema algum. A agência dos EUA fazia as visitas periódicas como prometido. Cada caso é um caso, mas o ponto é: pesquise sobre as agências e antes de fechar o programa se informe também sobre a agência conveniada nos Estados Unidos. Repito: não tive problema com a agência aqui no Brasil. Antes da viagem deu tudo certo e eles se mostraram preocupados quando minha mãe ligou reclamando e tal. Mas quem toma as decisões em outro país não são eles;

– Ao chegar, confie no seu feeling. Li em algum lugar que pesquisas indicam que, na maioria das vezes, a primeira leitura que fazemos de uma situação é a correta. Vou te falar que isso é verdade! Chegou na casa e sentiu que alguma coisa não está certa, pode ficar esperto. É sério. Eu senti desde o começo;

Não tenha medo de se mudar por magoar algum membro da host family. Pode parecer egoísta, mas se for para pensar em alguém, pense nos seus pais de verdade. Eles trabalham todos os dias para poder te dar esse tipo de oportunidade. Os programas de intercâmbio não são baratos e vocês poderiam gastar o dinheiro com muitas outras coisas. Não vale a pena ter uma vida miserável porque está sentido com o problema dos outros. Egoísta é a família que te escolheu sabendo dos próprios problemas e, mesmo assim, se acha no direito de pegar uma pessoa de outro país – que não tem nada a ver com a história – e enfiar no meio da confusão;

Não fique se perguntando “e se a próxima família for pior”. Se for pior, você pede para mudar de novo até ficar em uma melhor. Isso não é ser exigente e a agência não está te fazendo um favor. Você pagou muito por isso! E pega firme com eles porque pelo menos a agência que cuidou do meu caso nos EUA não estava nem aí para os intercambistas. Quase todos que foram para a cidade em que eu estava acabaram mudando de famílias mais de uma vez e as famílias com problemas recorrentes eram mantidas no programa nos anos seguintes.

Para finalizar, não fique sofrendo na casa alheia. Você não deve nada a ninguém e merece mesmo aproveitar essa fase que é única!

Importante: aconselho a mudança de família em casos extremos, como foi o meu. Se você quiser mudar simplesmente porque não gostou da casa, dos costumes, das regras etc. aconselho que abra a mente e tente se adaptar. Existe família com uma renda financeira menor do que você pode estar acostumado; que pedirá ajuda com algumas atividades domésticas ou alguns favores; talvez você tenha irmãos malas ou tenha que dividir quarto… As agências exageram, mas é verdade que cabe a você se adaptar. Não crie a família dos sonhos na cabeça pois você pode mudar duzentas vezes que não vai encontrá-la. E se encontrar, talvez não aproveite seu intercâmbio ao máximo.  Cada mudança é como começar do zero. Exige tempo e muita disposição.

Contei essa história que eu odeio lembrar (na real foi muito pior do que eu descrevi) porque se alguém estiver na mesma situação, só queria que não desistisse. Esse acontecimento me marcou! Quando eu escrevi tudo e depois li, fiquei até emocionada só de lembrar da época, porque realmente foi péssimo e, é claro, lembrar disso traz uns sentimentos ruins mesmo depois de tantos anos. Faz parte! Só que isso me fez perceber algumas coisas lá: o quanto eu deveria agradecer todos os dias pela família que eu tenho e também como eu era forte! Mesmo longe e sem amigos, eu me sai melhor do que eu poderia imaginar. Desistir era uma opção, mas escolhi outro caminho. Eu aprendi em 6 meses coisas que não tinha aprendido em 17 anos.

O que eu quero passar é: tem sim muita dificuldade, mas vale muito a pena quando as coisas se ajeitam. Ou quando acaba e você vê tudo o que passou! A gente sempre tem uma opção, uma saída. É só focar nas coisas boas!!! Como eu já disse em outros posts: tudo de ruim que acontece, sempre gera um aprendizado.


O guia completo sobre o High School foi escrito baseado nas dúvidas que eu tive na época e outras que identifiquei no grupo do facebook da galera que está se preparando para a viagem. Qualquer outra dúvida (ou desabafo) comente (ou me mande um e-mail no camila@mustsharebr.com)! 🙂

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By |2017-05-17T21:10:18+00:0024 abril, 2015|Tags: |

About the Author:

Camila Faria, 26, mackenzista formada em Administração de Empresas com pós graduação em Controladoria de Empresas pela FIA. Fez o primeiro intercâmbio aos 17 anos e criou o site em 2013, durante o ano em que fez faculdade na Europa. Para se dedicar ao Must Share Br, saiu do trabalho na área de finanças em São Paulo e hoje mora nos Estados Unidos. Acompanhem pelo instagram: @milafaria

One Comment

  1. Lune Jordano 2 de outubro de 2015 at 9:02 PM - Reply

    Aaah, estou adorando ler todos os posts do site e me identificando demaaais!!
    Tive os mesmos problemas em relação a língua (chegando lá e achando que sabia falar alguma coisa… sofri!), a me adaptar com uma cidade pequena e em relação a fazer amigos no high school… me sentia exatamente com em Mean Girls!! Os americanos não tem o mesmo feeling de amizade como nós temos… acho que muito disso por terem diversas aulas com turmas diferentes e tal, eles nunca criam laços de amizade muito fortes como os nossos no Brasil.
    Em relação ao racismo, realmente a Bruna deu sorte de ir para uma cidade maior e não ter q lidar com esse tipo de preconceito… mas a cidade que fiquei no Texas, fica bem naquela quininha vermelha do mapa que você compartilhou, no nordeste do Estado. Era estranho ver a família falando dos negros da forma que eles falavam, para mim simplismente não fazia sentido.
    Mas essa experiência é sensacional para um adolescente de 16/17 anos e traz um amadurecimento enooorme!

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