Turismo com animais: sobre minha visita a um santuário de leões

Recentemente, visitei a África do Sul e aprendi muito sobre coisas relacionadas ao turismo com animais e maus tratos. Resolvi escrever esse texto para compartilhar minha experiência durante uma visita ao Panthera África, conhecida como um santuário de leões.

Sugiro a leitura até o final! Vai agregar e te fazer (re)pensar, prometo.

Turismo e maus tratos aos animais

…coisas que não deveriam caminhar juntas!

Entendo porque gostamos de animais e queremos estar perto deles. Criaturas mais fofas e diferente de tudo que estamos acostumados. Amo e quero interagir com eles quando vejo, mas nunca curti a ideia de pagar só para tirar uma foto com o animal, por exemplo, além de atividades que os mantém presos para que o turista possa nadar com golfinhos, montar em elefantes, acariciar leões etc.

Não estou aqui para julgar quem já fez/quer fazer. Pelo contrário. Essa conscientização no turismo é um movimento recente. Eu mesma… jamais tinha parado para pensar sobre a situação dos que são considerados “animais de carga” como burros, camelos e cavalos. Já dormi num acampamento no deserto do Saara e para chegar até lá, fomos de madrugada montados em camelos.

Uma foto que eu não via problema algum, me causa desconforto hoje. A gente começa a repensar sobre a linha tênue entre “viver uma nova experiência/ajudar o turismo local” x “patrocinar os maus tratos aos animais“.

A África do Sul me deu um choque de realidade! E que choque.

Os leões da África do Sul

Você sabia que a caça de leões não é ilegal na África do Sul? Muito pelo contrário. O país soube transformar a caça de animais de grande porte em um mercado de luxo para atrair uma demanda turística que está disposta a pagar entre 20 mil e 180 mil reais pela prática.

Descobri um mundo que eu não sabia que existia. Um mundo munido até mesmo de catálogos para que as pessoas, integrantes de um público seleto, possam escolher quais animais querem matar.

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🦁 Hoje visitamos um santuário de leões e outros "big cats". Demorou um tempo para entender a diferença entre um santuário e um zoológico (a princípio foi essa a sensação que tivemos sobre o lugar) e ainda descobrimos informações bizarras sobre a caça na África do Sul. 😳😢 É triste ver um animal maravilhoso como esse preso assim, mas tem a história toda de um projeto para resgatar os animais que vale a pena ser contada. Acompanhem as atualizações em nosso site e aguardem o post com todas as informações que conseguimos com essa experiência: o que é um santuário, onde fica, por que eles estão presos, como funciona, trabalho voluntário, qual foi nossa opinião sobre tudo etc. 👉🏼 www.mustsharebr.com

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Linha do tempo de um leão nascido em cativeiro

Quando o leão nasce em cativeiro ele tem algumas opções na vida:

  • Existem famílias que compram o animal ainda filhote e criam dentro de casa como verdadeiros animais de estimação. Os filhotes, acostumados com a presença e o amor do ser humano, acabam “perdendo” seu instinto de defesa e a vida é linda. Até que os animais começam a crescer e com isso vem o arrependimento de ter um bicho tão grande que gera tantos gastos para seus donos.
  • Esses animais – que já não são tão amados – se já não viram alvo dos próprios donos, são vendidos para as fazendas de leões existentes na África do Sul. São centenas espalhadas pelo país e sim… é uma fazenda de leão. Milhares deles, presos em gaiolas esperando para procriar ou serem escolhidos por algum turista. Caso procriem, continua o ciclo de filhotes vendidos, se não, viram alvo dos turistas do mercado de luxo.
  • Ao ser escolhido pelo turista, o qual tem como único objetivo matar o animal, o pobre bicho (que confiava no ser humano desde que nasceu) é apenas um alvo fácil. Ele nunca aprendeu a se defender na natureza, então a caça nem é tão difícil assim. O único “instinto animal” nessa prática é a do ser humano: matar por diversão. Maravilhoso, né não?

Algumas das infos desse post eu consegui visitando o Panthera Africa, localizado na cidade de Stanford na África do Sul. E agora conto um pouco sobre essa experiência:

O que é o Panthera Africa?

O Panthera Africa é uma instituição sem fins lucrativos que resgata os “big cats” (leões, panteras, tigres, etc.) que por algum motivo não podem voltar para a natureza. Eles dizem ser impossível para o animal se adaptar à vida selvagem e sobreviver por muito tempo depois de nascer/viver em cativeiro.

Eu fiquei com o pé atrás porque a sensação que eu tive foi a de estar num zoológico. Afinal, pagamos para entrar, fizemos um tour no terreno com uma guia, observamos os animais e é isso basicamente. A guia nos explicou as diferenças entre um zoológico e um santuário.

Zoológico x Santuário
  • O zoológico tem fins lucrativos; santuários não. Os recursos vão para o bem estar dos animais. Atualmente, eles vivem da ajuda de empresas locais, visitas de turistas e trabalho voluntário de pessoas de outros países.
  • Muitas vezes, zoos colocam os animais para procriar e os mesmos acabam virando atração. Já vi defensores de zoológicos que defendem a prática principalmente nos casos de animais em extinção. Porém, se eles vão viver em cativeiro e virar atração para turistas com foco no lucro, qual é a lógica?
  • Santuários não comercializam animais. Eles resgatam os que precisam e ela repetiu um milhão de vezes que gostariam de ajudar mais animais, porém não tem a infraestrutura necessária.
Conclusão

No final, eu compreendi o trabalho e as diferenças, mas não diminuiu meu incômodo. Ficava naquela desconfiança… quem garante, fiscaliza, audita que todo o dinheiro vai realmente para os animais? Será que tudo isso não é maquiado? Já ouvi várias histórias de santuários fajutos e isso faz a gente perder um pouco a fé.

Em todo caso, tirei lições importantes de lá. Uma coisa que a guia disse e me marcou foi:

Toda vez que você tiver a oportunidade de tocar um animal selvagem que deveria estar bem longe de nós seres humanos apenas pergunte a si mesmo “por que eu estou autorizado a fazer isso?”, “de onde ele veio?”, “qual será o destino desse filhote?”. Muito provavelmente chegaremos a uma única conclusão: ele não deveria estar aqui.

Como saber se um santuário de animais não é falso?

Saímos de lá numa reflexão. Gostei ou não? É legítimo mesmo? Ficamos horas no caminho de Stanford até Mossel Bay falando sobre o assunto e resolvemos pesquisar. Encontramos no site da PETA um artigo sobre santuários de animais.

O que é a PETA?

People for the Ethical Treatment of Animals (PETA) é a maior organização de direitos dos animais do mundo, fundada em 1980 e conta com mais de 5 milhões de membros e apoiadores.

A PETA centra a sua atenção nas quatro áreas que mais causam impactos negativos na vida dos animais, os quais sofreram e continuam sofrendo ao longo dos anos: na indústria alimentar, no comércio de vestuário, em laboratórios e na indústria do entretenimento. Fonte: www.peta.org/about-peta/

Nessa pesquisa, encontramos o artigo Como saber se um lugar é um Santuário de Animais de verdade. Resumi e traduzi o artigo, pois achei muito útil.

Dicas para saber se um santuário de animais é verdadeiro
  1. O lugar em que eles ficam devem proporcionar um ambiente mais parecido com seu habitat natural possível, com a presença de animais parceiros que proporcionem companheirismo e permita criação de laços com sua espécie. Deve passar a sensação de liberdade, sem correntes ou pisos de concreto, por exemplo.
  2. A infraestrutura deve ser expansiva para comportar atividades físicas dos animais, como lugares para escalar, lagos, etc. A prioridade é que o espaço garanta o conforto do animal ao invés de ser atrativo para turistas.
  3. A depender do tamanho dos animais, os espaços devem ser largos verticalmente e horizontalmente. Eles não devem sair desse espaço para exposições públicas. Na verdade a interferência humana deve ser mínima.
  4. Nenhum santuário respeitável de animais selvagens ou exóticos permite o contato do público com os animais e isso inclui posar para fotos. Essa prática assusta os animais e é perigoso para ambos.
  5. Os animais devem chegar e ficar no santuário até o dia de sua morte. Nenhum tipo de comercialização, troca, etc. é permitido. O santuário só deve oferecer dinheiro (recurso escasso para esses santuários) para o dono de um animal em situações desesperadas com o intuito de salvar o animal.
  6. Não existe procriação. Um animal a mais, significa mais gastos, ou seja, não faz sentido gerar novos filhotes.
  7. Os santuários mais respeitáveis ​​têm tempos limitados de visitação pública, a fim de minimizar o impacto sobre os animais residentes. É preciso agendar a visita.
  8. Verifique se um santuário é credenciado da Federação Global de Santuários Animais (GFAS) antes de decidir visitar. O GFAS é uma organização de acreditação que exige que os santuários de membros observem um código de ética estrito e atendam aos padrões de bem-estar animal que excedem em muito os mínimos descritos na Lei de Bem-Estar Animal.
  9. Observe a atitude dos animais. Se eles aparentam ter medo da equipe, se ficam muito isolados, agressivos, angustiados, etc. pode ser que exista um problema.
  10. Siga seus instintos. Se você acha que um santuário está maltratando seus animais focando no lucro, comece a fazer perguntas. Mostre sua preocupação, peça seu dinheiro de volta e indique aos amigos e parentes para não visitar tal estabelecimento. É de extrema importância notificar a PETA.

Vale a pena visitar o Panthera África em Stanford na África do Sul?

O Panthera Africa atendia quase todos os requisitos acima, tirando o credenciamento na GFAS. Mesmo assim, me convenceu de que é um santuário de verdade que se importa com o bem estar dos animais.

O que me incomodou no passeio foi que a guia se esforçou too much nas histórias sabe? Foram várias “histórias tristes e fofas de gatos” que tiravam suspiros dos outros gringos. História de filme tipo Marley e Eu, O poderoso Joe (quem lembra?) e por aí vai.  Os mais idosos adoraram, mas acho que se tivesse sido natural, sem tanto romantismo, eu teria acreditado mais.

No final, ela basicamente implorou para que as pessoas avaliassem o passeio no Tripadvisor. Foi quando entendi porque tantas pessoas falavam tão bem do passeio, como se fosse imperdível.

Mesmo sendo um santuário, os animais selvagens não deixam de ser atração. Cheguei à conclusão que deveria ter trocado esse role por um passeio nas vinícolas, por exemplo. Para ajudar, prefiro depositar um valor como doação, opção que existe no site. Porém, foi válido. Se o Panthera Africa realmente faz o trabalho que diz, eu aprendi muito e refleti sobre o assunto.

MAAAAS, essa sou eu. Sempre apoio que cada pessoa deve ver/viver uma experiência com seus próprios olhos para tirar as próprias conclusões. Por isso, na dúvida, vá! Se não tiver muito tempo no país, não vale encaixar no roteiro. Quer ajudar com doação, sem visitar? Aparentemente, o lugar é legítimo.

Minha opinião, pós reflexão

É uma situação delicada! Tem uma série de aspectos que devemos considerar, mas gostaria de lembrar que meu foco nesse post é o turismo com animais. Análises e argumentos sobre o assunto podem ir bem além, porém me limito a falar sobre nossas ações durante viagens.

Em relação ao turismo…
> Sobre as instituições

Se a instituição resgata animais que estavam em situações péssimas para dar uma vida mais digna, já é um ponto positivo. Principalmente se elas tem intenção de devolver o animal para a vida selvagem, caso seja possível. Quando o animal tem que ser atraído mesmo que seja em seu habitat natural para satisfazer o público, já não concordo.

> Sobre tocar o animal

Se eles estão lá na deles e alguns até gostam de interagir com o público também, como me parece ser o caso de elefantes, então deveria estar tudo bem. Em Gibraltar, vários macacos ficam espalhados pelas ruas e eles vem até você, pegam sua comida e tal. A diferença para mim é que não tem ninguém prendendo esse bicho e ganhando dinheiro as custas dele. Tocar o animal deve depender da vontade dele. Se ele está preso, ele não deve ter muita opção né?

>Extra: sobre animais marinhos

Já viu aquela foto incrível de alguém num paraíso com uma estrela do mar na mão? Eu também já quis uma foto assim e informação nunca é demais: Não encostem nas estrelas do mar!!!! 

Ai, mas foi rapidinho que tirei ela da água, nem sentiu.”

Li que quando tiramos a estrela do mar da água, é o mesmo como se alguém enfiasse nossa cabeça dentro da água e ficasse nos afogando repetidamente. Agora, imagina, centenas de pessoas fazendo isso ao longo do dia com você? Além disso, elas são frágeis e podem morrer com qualquer movimento brusco. Isso vale para corais, ouriços ou qualquer animal marinho.

> Sobre os animais de carga

Como no caso de camelos no deserto, burros na Grécia, cavalos em fazendas… às vezes o passeio só pode ser feito dessa forma. E aí? Não pode fazer? Sejamos os fiscais desses animais. Se observarmos que o animal está abatido e sendo maltratado, temos que falar sim! Com o dono do animal, aos nossos amigos, promover um boicote a esse passeio específico, denunciar para alguma instituição. Se todos fizerem isso, quem lucra sentirá no bolso. E aí vem a “conscientização”.

Como podemos ser turistas conscientes?

Novamente, algo muito relativo. Ser consciente para mim pode ser outra coisa para você. No final das contas, cada um vai fazer aquilo que achar conveniente em determinada situação. Defendo que acima de tudo, temos que preservar a paz do animal. Simples assim!

Quer ajudar? Só podemos cultivar o bom senso, analisar o contexto e fazer uma reflexão sobre estar ou não compactuando com o mau trato de animais para viver algo que só o turista e o dono são os beneficiados.

Acredito ser possível ter um contato mais próximo com os animais! Ao manter uma interação natural com eles em seu habitat, respeitando suas vontades e seu espaço, fazemos nossa parte e todos saem ganhando.


Ufa, sei que é muita informação! Não precisa concordar com tudo que escrevi, mas se te fizer refletir já valeu. Foi isso que o Panthera Africa fez comigo! Caso queiram perguntar algo, é só comentar. Se precisar de mais dicas de planejamento para a África do Sul, leiam esse post também.

Já temos os gastos detalhados da viagem e o roteiro que seguimos. Não se esqueçam de curtir nossa página no facebook, insta e youtube, além de cadastrar seu e-mail no site (no final da página) para não perder as atualizações. 🙂

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By |2017-04-27T19:12:05+00:0027 abril, 2017|Tags: , , , |

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Camila Faria, 26, mackenzista formada em Administração de Empresas com pós graduação em Controladoria de Empresas pela FIA. Fez o primeiro intercâmbio aos 17 anos e criou o site em 2013, durante o ano em que fez faculdade na Europa. Para se dedicar ao Must Share Br, saiu do trabalho na área de finanças em São Paulo e hoje mora nos Estados Unidos. Acompanhem pelo instagram: @milafaria

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