Eu não aguento mais a síndrome de cachorro vira-lata

Antes de tudo: quem lê o Must Share Br sabe que, na maioria das vezes, damos dicas de viagem com o intuito de ajudar e inspirar nossos leitores. Paralelo a isso, compartilhamos nossos pensamentos em uma categoria chamada Must Open your Mind. Vira e mexe uns textos dessa categoria específica viralizam porque contém uma opinião. Ninguém é obrigado a concordar com o conteúdo, mas a ideia é promover uma reflexão e discussão saudável. Por esse motivo, queremos que os leitores com uma opinião sobre o assunto sintam-se livres para comentar e deixar seu ponto de vista. Não vamos tolerar brigas, xingamentos e desrespeito na página, como já aconteceu anteriormente. Respeito acima de tudo.

ps. apesar de citar a Anitta, o texto NÃO é sobre ela. Se você não gosta dela, tenta não perder o foco. Interpretação de texto é tudo. Obrigada 🙂

Eu não aguento mais a síndrome de cachorro vira-lata

Af Brasil. Tá difícil defender esse país, sério! Olha essa política. Tem corrupção? Tem! Dá vergonha? Dá. Tem muito crime, é perigoso, a gente anda na rua com medo. Educação é um lixo, gente passando fome, taxa de desemprego estourando. Sim! A gente concorda, mas tenha muito cuidado. Não vá para ou idolatre sem nem ter ido outro país achando que tudo é 100% perfeito e que sua vida vai decolar. Se você acha que SÓ o Brasil “é uma merda” e tem problemas, estou aqui para te dizer que NÃO.

Um exemplo, logo de cara. Vamos falar sobre segurança que é o que mais escuto sobre “a beleza que é viver em outros países”. Até onde eu entendo, louco, ladrão, tarado, terrorista, picareta, etc. a gente encontra em qualquer lugar do mundo porque PESSOAS são o problema. Não tem a ver apenas com nacionalidade. Não tem a ver com Brasil.

Muito provável que você conheça alguém que fez as malas e foi embora para Austrália. Quem nunca ouviu maravilhas desse país? Eu mesma sonho em ir para lá desde os 17 anos. Por esse motivo, participo de um grupo no facebook de meninas que moram na Austrália e uma delas fez um desabafo sobre ter visto um cara se masturbando no trem em plena luz do dia e olhando para a cara dela. Rolou uma chuva de comentários de outras mulheres que passaram por situações similares e até piores. Tem que parar para pensar: tem gente que vai para fora pra ter uma falsa sensação de segurança e nem seguro está. Só baixou a guarda mesmo.

Esse foi só um exemplo, mas a verdade é que país perfeito não existe. Segue outras situações de pessoas que moram em outras cidades:

“Ah mas no Brasil, as chances de acontecer algo ruim…”

Na maioria das vezes, quando alguém compara o Brasil aos EUA ou países da Europa como a Alemanha, por exemplo, é  apenas triste. É tipo comparar laranja com sardinha. Mais ou menos como perguntar “quem é melhor? Neymar ou Trump?” É isso: não faz o menor sentido, não tem como fazer uma análise justa sem considerar diversos fatores. Pior ou melhor em que? Impossível ser pior em tudo. Impossível ser melhor em tudo. Como qualquer coisa nessa vida, tudo tem um lado bom e um lado ruim.

Já passou da hora das pessoas que só sabem criticar Brasil entenderem que nossa história é diferente das histórias de países que elas insistem em usar como exemplo. Passamos por poucas e boas. Realmente, nosso país NÃO é país para quem quer tudo pronto. Aqui não é “Europa” mesmo e, de verdade, nunca vai ser. Ta uma bagunça e precisa sim de uma limpeza em diferentes aspectos, reestruturação, mudança cultural, mas tudo isso é um processo. E um processo longo e lento. Porém, quando nem o próprio povo acredita nele ou pior, torce contra, aí colega… não tem o que fazer, não é mesmo?

Depois de muito refletir sobre o assunto…

…conhecer e conviver com pessoas de outros países, viver fora e voltar, eu percebi que o maior problema somos nós e essa síndrome de cachorro vira-lata. Nós nos colocamos quase que involuntariamente nessa posição de inferioridade sempre que surge uma oportunidade. Não conseguimos pensar, sequer imaginar um país melhor. Essa é a realidade: a gente mesmo sabota nosso país.

Franceses também falam mal da França. Americanos também falam mal dos EUA. Mas se vier qualquer pessoa de fora falar um A sobre seus países, eles já respondem com os 2 pés no peito. Agora, vem um gringo falar mal do Brasil na nossa cara… só dá nois puxando uma cadeira pra falar mais ainda. É capaz até de pagar um café pro gringo.

Recentemente, fiz uma viagem pela América do Sul e cheguei a pensar que essa síndrome era uma coisa “latina”. Não é. Por onde passei, as pessoas tinham bandeiras e mais bandeiras de seus países. Em restaurantes, na frente das casas, etc. Nos lugares mais humildes que passei na Bolívia, por exemplo, você encontra uma bandeirinha lá. Em Cuba… encontrei bandeira e discurso com muito orgulho. Eles sabem dos problemas dos seus países, mas eles amam seus países. Eu nunca tinha sentido amor pela bandeira do Brasil, até morar nos EUA e aprender com os outros a achar linda a bandeira do meu próprio país. Tem gente que nem sabe cantar o hino. A gente só é patriota a cada 4 anos, se é que vocês me entendem. Isso é louco, triste e real.

Mas também, esse é o nosso povo:

É país que vê Beyonce e Rihanna rebolando, mas quando é Anitta já fala que é uma bosta. Mesmo a menina no topo das paradas sendo reconhecida por grandes artistas, pela boca do brasileiro ela sempre vai ser criticada porque é Made in Brazil. São as mesmas pessoas que escutam aquela música em inglês sem sentido algum, cheia de palavrão, muitas vezes sem nem saber o que significa e mesmo assim tamo lá amando, cantando alto a música que ta no topo da nossa playlist.

Independente do nosso estilo musical preferido,  a menina é mais nova que muita gente que ta lendo esse texto e se ela ta no topo, algum orgulho dela como pessoa, uma brasileira que cresceu e ta se dando bem, fazendo o nome lá fora, a gente, Brasil, deveria ter. Ela ta de parabéns!

IRONICAMENTE, escrevendo esse texto me deparo com um vídeo da “evolução das músicas da Anitta de 2012 até hoje“. Bem legalzinho o vídeo e você VÊ a evolução. Fiquei feliz por ela como se fosse uma amiga. E o primeiro comentário do vídeo e também o mais curtido:

Pessoal fuçou o perfil do ser humano e questionou sobre ele gostar loucamente da Britney Spears, mas falar mal da Anitta e “o argumento”:

Gente mesmo! O CARA IDOLATRA A BRITNEY SPEARS e menosprezou a Anitta por ser uma “quenga do funk”. Depois, também disse que a diferença é que ele tinha bom gosto. Esse rapaz e seus “argumentos” não podiam descrever melhor o que eu to tentando mostrar aqui.  A cara de uma parcela desse nosso país, infelizmente. E aí eu te pergunto: é o jogo dos 7 erros abaixo? É possível ser tão cego assim? Pois eu também vejo a diferença: a Anitta rebola a bunda melhor e é nossa. <3

Não to aqui pra defender Anitta. Ninguém é obrigado a gostar da música, dos clipes nem da artista. To querendo apontar alguns aspectos da NOSSA postura quando estamos falando de “coisas nacionais”. Esse comportamento/pensamento está impregnado em nosso dia-a-dia.

Você também faz parte disso

Quem faz um país são as pessoas. Se o país está ruim, logo…

Assim como você (talvez, você seja essa pessoa), eu conheço pessoas que falam “eu nunca mais volto para o Brasil”. Cara, eu acho isso ótimo. Cada um tem seus motivos, sua realidade e se o indivíduo se encontrou em outro lugar, tem mesmo é que ser feliz. Porém, lá fora vai estar longe de ser fácil. Sair daqui pensando que vai trabalhar menos para viver uma vida melhor e mais luxuosa, que vai ter 100% de segurança, etc. é um erro e tanto. É ser quase (bastante) ingênuo. Tem todo um lado positivo é claro, mas (como tudo na vida) você ganha em alguns aspectos e perde em vários outros.

Esse texto é direcionado para os que sofrem dessa síndrome de vira-lata. Quem compara nosso país aos outros com coisas que apenas não tem comparação, não consegue admitir qualidades do país que vão além de samba, carnaval, caipirinha, bunda e futebol. Mais direcionado ainda para os que lançam discursinho medíocre de “esse povo brasileiro, coisa de brasileiro, não aguento brasileiro”. Big news (oh, bem internacional): cê também é brasileiro, sempre vai ser. Em qualquer lugar do mundo. Pode morar 170 mil anos fora, porém se nasceu aqui, suas raízes são as mesmas que as minhas, da Anitta e de todos os brasileiros. E com todo respeito: se você já ta morando em outro lugar, OBRIGADA POR TER IDO. Não volte mais mesmo! Tantos problemas, não precisamos de outro.

E essa vai para todos nós: se ta tudo uma merda e você é brasileiro, bom… ta mais que na hora de parar de procurar culpados e botar a mão na consciência: pode se sentir responsável também. Somos parte disso e o dever aqui é começar a se perguntar todo santo dia: como posso melhorar o meu país?

Reclamar sem dar solução, já sabemos que não ajuda. Vamos tentar algo diferente? Que seja pequeno: estudar os candidatos na próxima eleição (mesmo que sejam todos ruins, vamos votar com embasamento?); não comprar aquele celular baratex sem nota fiscal e fingir que não sabe de onde veio; não furar a fila do amiguinho; encontrar uma carteira, uma camera, um celular e procurar pelo dono ou pela polícia. Defender o Brasil na próxima vez que ouvir alguém falando coisa sem sentido ou pelo menos não espalhar discurso de ódio contra seu próprio país porque muito ajuda que não atrapalha. Tarefa de casa para todos nós.

Posso listar um zilhão de pequenas atitudes. Qualquer coisa. Podemos sempre melhorar e fazer a diferença. Ser um ser humano melhor, um cidadão melhor, um profissional melhor, um brasileiro melhor. Porque a mudança dessa “merda toda” tem que começar pela raiz. Começa com a gente.


Gostou ou não gostou desse texto? Em qualquer um dos casos, aconselho a leitura dos textos abaixo. Se não quiser perder nossas atualizações, estamos no facebook e no Instagram.

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By |2017-08-31T21:12:25+00:0031 agosto, 2017|Tags: , , |

About the Author:

Camila Faria, 26, mackenzista formada em Administração de Empresas com pós graduação em Controladoria de Empresas pela FIA. Fez o primeiro intercâmbio aos 17 anos e criou o site em 2013, durante o ano em que fez faculdade na Europa. Para se dedicar ao Must Share Br, saiu do trabalho na área de finanças em São Paulo e hoje mora nos Estados Unidos. Acompanhem pelo instagram: @milafaria

4 Comments

  1. Luciana 1 de setembro de 2017 at 10:33 AM - Reply

    Algumas pessoas da minha família se mudaram em busca de um salário mais digno e estão vivendo bem na Europa …..não foram em busca de segurança apenas mas de uma vida melhor e conseguiram .
    Claro q violência existe onde existe pessoas mas aqui Ta muito mais escancarado e isso nos faz pensar q eh pior !
    Infelizmente não sabemos votar e não se tem nenhum candidato q valha meu voto 🙁
    #brasilterrasemlei

  2. Sara 1 de setembro de 2017 at 2:01 PM - Reply

    Adorei! Não concordo totalmente, mas não vamos nos apegar a detalhes, a ideia central é super verdadeira. Exemplo, as meninas aqui na Europa usam saia mega curta e shortinho, aí várias vezes teve brasileiro me falando que “infelizmente a mulher brasileira se veste de forma vulgar” (engraçado é que a frase sempre tempo infelizmente ). Eu falo que aqui as roupas são ainda mais curtas, mas ele não acha vulgar porque é uma européia, e aí a pessoa tem que concordar comigo.

  3. Cintia Gasques 15 de setembro de 2017 at 7:48 PM - Reply

    Verbalizou meus pensamentos. E esses pensamentos e sentimentos se acentuaram depois que passei a morar fora.
    Atualmente, vivo na Europa, e confesso que me irrita e não admito que alguém que não conhece meu país, que utiliza o senso comum, fale mal do Brasil.
    Parabéns pelo texto!

  4. Ana Luiza 15 de agosto de 2019 at 2:19 PM - Reply

    Concordo em gênero, número e grau! Parabéns pelo posicionamento, já me identificava muito com vocês, agora então 🙂

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